Ler é diferente de ver
A discussão cinema versus literatura, por mais interessante que seja, geralmente resulta em tópicos estéreis, já que cada lado ganha defesa e ataque pertinentes, mas nenhum no fim tem lá muita razão. Mas é muito intrigante e produtivo, para quem se interessa pela mecânica da coisa toda, comparar livros e suas respectivas encarnações cinematográficas, quando se conhece o material original.
Pois bem. Adaptação do livro de Scott Smith (o mesmo autor do romance, e depois filme, Um Plano Simples, pelo qual levou uma indicação ao Oscar), As Ruínas, o filme, é totalmente decepcionante para quem leu o livro e, suspeito, também para o espectador ordinário que nem sabia que este filme veio de um romance.
Não se trata de puritanismo ou apego à obra original, apenas a constatação de que há uma grande distância qualitativa quanto à satisfação causada pelas duas obras distintas. Eu poderia escrever aqui que o autor talvez não tenha gostado nem um pouco com o que fizeram com o seu filhote, mas a questão é que o próprio Smith adaptou o material para o cinema, entregando o tomo ao diretor estreante em longas Carter Smith – o sobrenome é o mesmo, mas não há nenhum parentesco.
O que me chamou atenção é que Smith fez um guião claramente construído para não deixar quem leu o romance- um Best Seller nos Estados Unidos- de fora da festa, já que saber os desdobramentos da trama poderia ser fatal, ainda mais em uma trama de horror. Para ser mais preciso, ele troca o visual e a personalidade dos personagens principais, assim como as situações e o destino de cada um. Não vale a pena revelar aqui o que foi trocado ou modificado, pois este é um texto sem spoilers, recurso que eu acho que deve ser usado com parcimônia e somente se for de real necessidade, com um essencial aviso introdutório, claro.
A revelação das modificações, ou melhor, adaptações, poderia estragar o prazer tanto de quem já leu o livro e quer ver o filme, ou do espectador virgem – mas os primeiros, se ficarem imunes a uma possível decepção, ou até mesmo irritação, iniciais, podem se divertir um pouco, comparando e listando as situações em que Smith teve uma rara chance de brincar mais um pouco com o seu brinquedo, e de dar rumos alternativos a sua obra aparente e inicialmente imutável.
Mas nem tudo é festa. O filme é fraquinho de doer. Um dos produtores é o ator Bem Stiller, e a equipe técnica é lotada de membros classe A, então temos um produto de muito bom gosto, pré-fabricado. Se o romance As Ruínas é uma obra de extremo interesse por construir uma trama de horror e de decadência humana, tanto a moral quanto a física, além de uma ou duas piscadas de olhos sobre temas batidos,mas sempre válidos, como os embates homem contra a natureza, e primeiro mundo contra terceiro mundo, o filme se reduz a uma obra corriqueira e até mesmo banal de terror.
O livro, que é uma trama de terror psicológica, dá agonia pela exatidão sádica da descrição da desgraça dos quatro amigos, culminando em um desfecho amargo. Já o filme é totalmente Hollywood, e me impressionou o quanto ele é curto e totalmente abrupto. Parece que dura apenas meia hora. O que poderia ser um elogio (“é tão bom que passa rápido”) simplesmente não cabe aqui. O filme é apenas ligeiro e raso. Mas Jena Malone é ídola, e ter Yeah Yeah Yeahs nos créditos finais dá ao filme um pouco de respeito, pelo menos para mim.
- Eu quero a minha mãe, um médico e um roteirista com culhões!
The Ruins / Carter Smith / 2008 (2:35:1)









