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domingo, 1 de novembro de 2009

Carrie - A Estranha ( ***** )


Barrada no baile

O meu filme de Halloween este ano (a data mais cinéfila de todas, depois do Natal, claro) foi o clássico Carrie – A Estranha. Daqueles filmes que viram ícones e fonte de referencias a cinéfilos e cineastas das gerações seguintes, o primeiro grande sucesso de Brian DePalma é uma deliciosa, e ao mesmo tempo tétrica, história de bruxa do século XX.

Baseado no primeiro romance de Stephen King, autor que não faz a minha cabeça, mas que deu base para muito filme bom de horror, Carrie é uma maravilha de se ver, e se diferencia das centenas de títulos de horror e fantasia da década de 1970 devido à direção brilhante do mestre DePalma. Os zooms, as telas divididas, os planos mistos e um ou outro brinquedo que o cineasta adora são usados aqui sem afetação e com extrema competência.

Outro ponto que coloca Carrie como um horror digno e classe A é o seu elenco. Sissy Spacek, linda e excelente atriz, usa aqui toda a sua candura e o seu lado diabólico, duas facetas aparentemente antagônicas, mas que enriquecem a sua composição da pobre garota. Ela causa simpatia e comoção por uma personagem que poderia ser facilmente rejeitada pela sua passividade.

Piper Laurie também está sensacional como a bruxa louca que é a mãe de Carrie. Fanática religiosa, ela é uma louca sim, mas uma louca pouco óbvia. Entre o elenco jovem, o destaque fica para Amy Irving, ótima como uma das poucas pessoas do colégio que se apiedam da menina, e Nancy Allen, a vadia do colégio, perfeita. Quando leva um tabefe da professora, numa cena sensacional, todos nos sentimos vingados. Cachorra!

O filme de DePalma continua sendo um marco pela sua criatividade e pela maneira de abordar o assunto, hoje em bastante evidência, do bullyng escolar. Carrietta White é tratada como lixo na escola e como bicho em casa, e quando vemos os desfechos trágicos da perseguição que sofre, ela não é vista exatamente como uma vilã. Da inesquecível e definitiva cena em que ela ensina com quantos números de pirotecnia se fazem um baile escolar, a sua volta para casa, ficamos do lado de sua personagem.

Os contornos góticos e líricos fornecem um clima a mais. Opressivo e belo ao mesmo tempo, é um filme marcante também pela forma como aborda o fanatismo religioso e mostra como gente de Deus pode ser mais malvada que o capeta.

O MELHOR: a sintonia do elenco, o roteiro enxuto e a direção firme e rica

O PIOR: Se fosse mais bem informada, Carrie poderia ser uma mulher rica e viva hoje em dia

PSIU: Em 2002, Carrie ganhou uma versão bem tosca pra televisão. No elenco, a única presença boa é a da excelente Patrica Clarckson como a mamãe doida da Carrie. A mudança mais significativa é que Carrie (aqui interpretada pela musa indie Angela Bettis,esquisitíssima) fica viva no final. Então tá.

O DVD de Carrie – A Estranha: Lançado no Brasil em uma versão sem nenhum extra pela MGM/Fox, Carrie – A Estranha ganhou uma edição especial em 2004. As capinhas são muito parecidas e em ambas as edições só há um disco, mas os extras da Edição Especial são ótimos.

A imagem está bem nítida em widescreen, com o corte original em 1:85:1. Não há comentários do grande Brian DePalma, mas ele e membros do elenco comparecem em documentários extensos sobre a produção e a escalação do elenco. Aqui é oficializada a história de que DePalma e George Lucas realizaram teste de elencos simultâneos, selecionando intérpretes jovens e desconhecidos para as modestas produções Carrie e. ..Guerra nas Estrelas!Uau.

Também temos um featurette sobre o lançamento do livro de Stephen King, galeria de fotos, menus animados (muito bons) e o trailer de cinema original. Inacreditável, nenhum dos extras conta com legenda em português. Foda-se Fox. Que a Carrie puxe o pé do executivo responsável por este descuido. Fácil de achar nas lojas virtuais e, curiosamente, a versão sem extras muitas vezes é mais cara do que a edição especial.

Carrie / Brian DePalma / 1976 / (1:85:1)


segunda-feira, 23 de julho de 2007

Ratatouille ( ****1/2 )

Muito além do Mickey

Esta nova animação da Pixar foi para mim o filme certo na hora certa: espantando o tédio e a saudade da tela grande, sendo também uma grata surpresa. Já esperava diversão e algo mais aqui, como de praxe deste estúdio, só que nunca tive muita afinidade com desenhos animados, e são poucos os que eu realmente gosto e admiro – vai ver por que eu também vejo poucos filmes do gênero. Mas, assim como em seu trabalho anterior (Os Incríveis), o diretor Brad Bird transcende o campo da animação, criando mais um grande filme que satisfaz mais do que muitos filmes live-action que entram em cartaz toda a semana.

O que eu admiro neste aqui, além do visual sensacional, é o roteiro, que subverte clichês a cada nova cena. Sim, as lições de moral, os vilões, os desentendimentos, reviravoltas da trama, está tudo aqui como manda o manual, mas tudo é armado de forma tão inteligente, que acompanhei certas cenas com um sorriso dos mais bestas na cara. Muita coisa clichê que estamos acostumados a ver nos finais de certos filmes é dispensada em tempo hábil aqui, manobra acertada e que põe o filme em outro nível.

O protagonista do filme, o ratinho Remy é outro achado. Não estamos falando de um camundogo limpinho e engraçado, mas sim de um rato de esgoto. Se você tem problemas com isso, não precisa se preocupar, pois Bird tem o cuidado de mostrar este tão temido bicho de forma muy simpática, que até mesmo quando você assiste a família do nosso herói em peso na cozinha (argh...) você já vai estar acostumado com os nossos amigos do esgoto.

Poderia ser uma bobagem ou filme bem mais simples e funcional, como o bacana Por Água Abaixo (outro desenho estrelados por ratos), mas este vai além. Para explicitar ainda mais as qualidades desse filme, caio na facilidade de dizer que este desenho é forte candidato ao Oscar de melhor filme do ano que vem, e isto é mais um elogio a cada vez mais esquecida capacidade da Academia - que nunca foi grande coisa- em reconhecer o que é verdadeiramente bom do que ao filme em si.

Nosso herói azul é um cara bem bacana, mas não fica apenas nisso. Um filme que faz você sentir empatia, se identificar e torcer a favor por um rato de esgoto merece a minha admiração. Afetuoso, inteligente e extremamente divertido, Ratatouille é o melhor filme que eu vi até agora este ano, e dá vontade de sair recomendando ele para todo mundo. Experimente.

Ratatouille / Brad Bird / 2007 (2:35:1)