Um maravilhoso filme irregular
Quando vi Kill Bill – Vol. 1 pela primeira vez foi traumatizante. Para mim não foi uma sessão de cinema, foi um experimento de tortura. Não tive estômago pra tanta carnificina, e não caí naquela de que “é tudo tão artificial que não choca”. Sim, o sangue ali tem uma cor diferente e jorra em excesso, mas um braço cortado ainda é um braço cortado. Mas, se hoje não tenho problema algum em rever o filme de olhos bem abertos (tirando a cena da porta; nunca me acostumarei com aquilo), fica a lembrança da tensão causada nos filmes de Tarantino, seja por pressão psicológica ou pela integridade física do outro. Isto está presente em todos os seus filmes.
O temor pelo o que acontecerá pelos seus personagens, os confrontos, os embates muito bem construídos, são uma das melhores coisas em seus filmes, e a ausência desse sentimento em diversos momentos chaves de Bastardos Inglórios já é um indicio de que algo está errado aqui. Em cenas chaves parece que estamos vendo uma imitação Tarantinesca, não um momento saído direto da fonte.
Tem tudo o que esperamos de um Tarantino: cinefilia exacerbada, a maravilhosa reutilização da trilha sonora alheia, diálogos extensos e sensacionais, atuações intensas, a quebra de expectativas e momentos surpreendentes. Mas Bastardos não me pegou. Foi a primeira vez que não gostei de um filme de Quentin Tarantino, quem sabe em futuras revisões mudo esta impressão.
O problema aqui é que o ritmo, sempre tão fluente nos filmes do cara, é mal resolvido, e a divisão em subtramas, os inserts, não funcionam como em seus outros filmes. O roteiro de Inglórios, apesar do divertido e do delirante desfecho, também é um pouco decepcionante. Parece que foi tão bem trabalhado que passou do ponto. Merecia uma revisão e um refinamento, apesar de toda a sua inventividade.
Disfarçado de filme de guerra e vingança, aqui não temos mais uma recriação de uma aventura redentora tão popular no cinema clássico americano. A um pequeno passo da paródia, a trama aposta na subversão de velhos clichês envolvendo aliados e nazistas, uma grande brincadeira. Ambientado na Europa, não poderia ser mais americano e irônico.
Christoph Waltz, Daniel Brühl e Melanie Laurent estão sensacionais, e mereciam um filme só para os seus personagens. Brad Pitt e seu risível tenente Aldo Reiner poderiam doar todas as suas cenas para o Coronel Hans Landa e Shosanna, seria mais justo e benéfico. E que cena é aquela da grande Shosanna esperando o momento de sua vingança, ao som de David Bowie e seu tema para A Marca da Pantera? Sensacional e um dos momentos mais transcendentais do ano. Mas e o resto?
Vou parar por aqui antes que eu me incrimine mais. Pelo jeito, fui um dos pouquíssimos que não aplaudiram Bastardos de pé. Quem sabe qualquer dia desses
PSIU: Os últimos filmes de Tarantino tiveram péssima distribuição no país. Os dois volumes de Kill Bill foram lançados com seis meses de atraso em relação ao resto do mundo, e o ótimo Death Proof até hoje está no limbo da distribuidora Europa Filmes. Bastardos inglórios, a maior bilheteria da carreira do diretor, pelo jeito só saiu rápido no Brasil porque foi distribuído por uma major, a Paramount/ Universal.
PSIU 2: Meu Top 7 Tarantino (longas)
1. Kill Bill – Vol. 1 ( ***** )
2. Pulp Fiction – Tempo de Violência ( **** * )
3. Jackie Brown ( ***** )
4. Death Proof ( **** )
5. Cães de Aluguel ( *** )
6. Kill Bill – Vol. 2 ( *** )
7. Bastardos Inglórios ( ** )
Inglorious Basterds / Quentin Tarantino / 2009 (2.35:1)



