Quando a vida é um inferno
O lançamento Arraste-me Para O Inferno merece ser celebrado porque, aleluia, o Sam Raimi deu um tempo da série Homem Aranha (já desgastada em seu terceiro episódio) e voltou com força às raízes B do começo de sua carreira. Aqui, com a classe e a eloqüência moral de um episódio de Contos da Cripta, ele brinca com o terror gosmento, frenético e curiosamente hilário que marcou o início de sua carreira.
Toda vez que eu lia que este filme era uma mistura perfeita entre terror e comédia, botava pouca fé, pois em todo exemplar de terrir que eu já vi sempre o lado cômico predomina, e aqui não é diferente. Há momentos arrepiantes ocasionais e muitas cenas que assustam o espectador no grito, cheio de efeitos sonoros graves e repentinos.
Mas o mais interessante do roteiro, escrito por Raimi e seu irmão Ivan (a mesma dupla que escreveu o desastroso Homem-Aranha 3, mau sinal) são as beliscadas no espectador, com questões sobre ganância, solidariedade e falta de dinheiro, tópcos oportunos em tempos de crise econômica mundial. Melhor timing, impossível.
Começamos bem com o logotipo antigo da Universal, que foi exibido até a metade dos anos 1990 – vem podreira por aí, já fica claro. A certa altura, brinca-se de mandar os outros para o inferno, e é incrível que uma produção de espírito declaradamente tão B (também de besta) possa levantar mais questões e pensamentos interessantes do que muito filme sisudo que se vê por aí.
Raimi brinca com uma espécie de festival de terror oral e levado, com muita baba, gosma e insetos rondando os orifícios da protagonista, vivida pela carismática Alison Lohman. Há momentos que lembram um episódio de Pernalonga ou Pica Pau versão 18 anos, com embates físicos impagáveis, e sem nenhuma consequência real – pra resumir, arranhões no lugar de uma cadeira de rodas.
O filme brinca com convenções espíritas e contos de assombração, e a direção de arte é bastante boa. Os personagens são rasos, quando não caricatos, sem falar no desserviço sacana que é colocar todo personagem estrangeiro como exótico, nojento ou macumbeiro. É tudo muito autoconsciente e (auto) referencial – mais ou menos como o Planeta Terror de Robert Rodriguez, mas o resultado aqui soa mais original, embora o filme decepcione.
É Também coerente com as outras produções da produtora de horror de Raimi, a Ghost House: é irregular; por outro também é a melhor de todas lançadas pela grife até e agora, já que de lá só sai bomba, vide as franquias de baixa qualidade O Grito e O Pesadelo.
Pena que no final Raimi aposte em um desdobramento muito mais que óbvio, coerente com o que temos visto na carreira dele e com o tal espírito de cinema de horror de segunda, mas francamente sem graça e decepcionante. Um desfecho irritante que, caso raro, consegue estragar tudo o que vimos antes. Vá para o inferno Sam Raimi.
PSIU: O filme, o primeiro do cineasta em 9 anos fora do universo dos quadrinhos, seria estrelado pela Juno, vulgo Ellen Page. Foi substituída pela Lohman, por sinal muito parecida com ela, e que andava sumida das grandes produções e merecia um papel principal há muito tempo.
O MELHOR: o clima vagabundo e de vale tudo, fake, mas funcional
O PIOR: os efeitos especiais de quinta categoria e os desdobramentos cretinos do roteiro
Drag Me To Hell / Sam Raimi / 2009 (2:35:1)

