terça-feira, 21 de julho de 2009

Deixe Ela Entrar ****


Horror every day

Então este é o filme que anda fazendo a cabeça de todo cinéfilo fã do gênero fantástico. Mas Deixe Ela Entrar serve para todo mundo: o filme é lindo demais. Lindo, não por ter borboletinhas,floreios ou cenas chorosas. O filme é de uma sensibilidade tocante, tanto no que se refere a uma construção cinematográfica delicada e dedicada, quanto nas observações dos horrores causados ou enfrentados pelos personagens. É mesmo um mundo terrível.

Do lado de cá da tela, quando obras com síndrome de travesti como Crepúsculo são vendidas como uma amostra de qualidade do universo do terror ou como bom reprodutor da mitologia de vampiros, este filme especial vem lá da Suécia pra dar um tabefezaço na cara do mainstream (Hollywood já está refilmando), com direito a algumas cenas essenciais quando passarmos a discutir o terror representado no cinema neste começo de século.

É também uma daquelas obras que dá piscadelas pra gente, mostrando que horror mesmo é crescer e virar um adolescente- ainda mais ser um para sempre. Brrr. Toques explícitos de bullyng e pedofilia servem para dar uma atmosfera moderna e tétrica ao filme. O horror hoje nem precisa mais de tanto sangue e tripas: o cotidiano é um inferno bem mais palpável.

A maior fonte de desconforto ao ver Deixe Ela Entrar vem da sonorização. Apostando no velho e bom poder de sugestão, o som e os efeitos sonoros parecem ter vindos diretos do inferno, promovendo total coerência em um filme em que o não ver é muito mais poderoso do que presas exibidas orgulhosamente.

Os atores infantis são impressionantes: ele, de uma inocência e ingenuidade comoventes. A nossa jovem, perigosa e digna de piedade em intensidades parecidas. Já os coadjuvantes, principalmente o maior antagonista do Oskar, parecem ter saídos de uma convenção teen do partido nazista. Não tem Lorde Voldemort ou lobinhos da floresta que ganhem deles.

Psiu: Let Me In, a versão ianque do filme, já nasce predestinada ao fracasso artístico. A sutileza e a frieza européia certamente vão se perder na adaptação, e duvidamos que um filme norte-americano tenha coragem de ser tão perverso e duro como este aqui. Ainda mais com um desfecho ao mesmo tempo tão poético e apavorante como aquele. Curiosamente, os cartazes que estão sendo lançados para promover o remake estampam em letras enormes que se trata do novo filme do diretor de Cloverfield – Monstro, como se houvesse algum mérito nisso. Não que aquele sub-Godzilla com síndrome de Sony Entertainment Television (valeu Saúl!) não tenha qualidades, mas é totalmente a antítese de um filme como Deixe Ela Entrar. Veremos.

Psiu 2: Nem sei se Deixe Ela Entrar é um título oficial. Foi exibido em festivais brasileiros com essa alcunha, mas pode ser modificado. Enquanto isso, todo mundo já viu o filme em algum meio alternativo. Mais uma vez os circuitos distribuidor e exibidor brasileiro dando provas de como são patéticos e atrasados.

Låt Den Rätte Komma In / Tomas Alfredson / 2008 (2:35:1)

Filmes de Junho de 2009


1. Hudson Hawk – O Falcão Está à Solta **
2. Trovão Tropical ***
3. Os Bons Companheiros ***

4. A Outra Face *****
5. O Exterminador do Futuro : A Salvação *

6. Piratas do Caribe: O Baú da Morte **

7. South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes *****

8. Nick&Norah: Uma Noite de Amor e Música **

9. Vivendo no Limite ****

10. Medo da Verdade **

11. Má Educação ****
12. A Vida dos Outros ***
13. Pão e Tulipas **
14. 8 Mulheres *****
15. Garotas do Calendário ***
16. Fale Com Ela ****

17. Queime Depois de Ler ****

18. Senhora Anderson Apresenta **

19. O Lutador (08) *

20. Garotas Selvagens ***

21. Sabotador ****

22. Onde Os Fracos Não Têm Vez ****

23. Valente ***

24. A Profecia ****

25. Transformers *

26. Vida de Menina ***

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Filmes de Maio de 2009

1. Ladrão de Casaca **

2. A Cor Púrpura ****

3. A Fuga das Galinhas ****

4. As Pontes de Madison ***

5. A Múmia ****

6. Vampiros de John Carpenter ***

7. Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Fleet Street ***

8. Presságio *

9. 007 – Um Novo Dia Para Morrer ****

10. Sunshine – Alerta Solar ***

11. Na Mira do Chefe ***

12. As Aventuras de Moliére **

13. The Contender **

14. Por Trás da Máscara: O Surgimento de Leslie Vernom *

15. Fantasmas de Marte ***

16. Hot Rod – Louco Sobre Rodas *

17. As Ruínas *

18. Piranha 2 *

19. Num Lago Dourado **

20. Vida de Solteiro ****

21. Jackie Brown *****

22. Elefante **

23. Angels In America ****

24. O Nome do Jogo ****

25. Dúvida ***

26. Ratatouille ****

27. Os Caçadores da Arca Perdida ****

28. Deixe Ela Entrar ****

29. O Indomado ***

30. Cidade dos Anjos **

31. Tudo Sobre Minha Mãe *****

32. Miami Vice ****

33. Cantando na Chuva *****

34. Garotos Incríveis ****

35. Hannah E Suas Irmãs ****

36. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa *****

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Crepúsculo ( *** )

Estados Unidos registram primeiro caso de vampiros que não gostam de sexo

Vamos lá. Espécie de primo pobre do Harry Potter, a série de livros Crepúsculo (cujas futuras adaptações cinematográficas nos Estados Unidos serão apresentada com o pomposo pré títuloThe Twilight Saga”, mostrando o nível de auto-importância do produto) tem seu primeiro volume transformado em um filme funcional, para quem tiver saco de ignorar a tosquice da coisa toda. É divertido, mas não é necessariamente grande coisa, o que nunca foi um problema para alguns cinéfilos.

Não li o livro, mas pelo filme descobrimos que trata-se de uma história safada que usa a mitologia de vampiros apenas como um trampolim para concorrer com a saga de J.K. Rowling e vender seus idéias pudicos, recheados com doses clichês de romance, ação e um mínimo de mistério. Horror propriamente dito não há, o que já indica sinais de picaretagem.

Mas faz enorme sucesso por aí, principalmente entre as pré-adolescentes, adolescentes, meninas jovens e meninas de todas as idades que pensam que são adolescentes, porque é nada mais nada menos do que uma historinha de príncipe encantado incrustada de referências do mundinho pop, que vão dos já batidos X-Men à filme slasher adolescente. O resultado beira o trash, o que é corroborado por alguns efeitos visuais toscos, mas também não chega a ser um Caminhos do Coração da vida, ufa.

A escritora Stephanie Meyer demonstra a sua esperteza não pelo resultado em si, mas porque oferece a sua platéia algo mais do que batido, mas que ninguém pensou antes dela, o que a torna pioneira ao vender conservadorismo para um público, digamos assim, cada vez mais liberado.

A protagonista é uma virgenzinha branquela recém chegada numa cidadezinha, que atraí um colega bonitão e mauricinho, ainda mais branco do que ela, exatamente pelo seu cheiro virginal, seja lá o que for isso, e pele alva. Cheia de suspeitas, ao presenciar atitudes estranhas do tal colega, ela entra no Google.com e descobre que ele é um vampiro, passando a perna em todos os moradores da cidade, que nunca descobriram isso neste tempo todo.

Iniciam um romance em que, como muitas paixonites adolescentes, ela logo afirma que não pode viver sem ele. Só que a autora, assim como a roteirista, leva isso a sério, o que é justamente um dos motes da série – de quatro livros, todos lançados no Brasil até o fim deste mês.

O fato do nosso vampiro bonitão herói ter quase cem anos nas costas, e a menina ser menor de idade, jamais é questionado. O amor não tem idade, embora o filme passe longe de qualquer lirismo ao estilo Ensina-me a Viver. Quando os amassos entre os dois esquentam (ele tem acesso livre ao quarto dela), em vez de uma ereção, as presas dele aparecem, sugerindo que mais uns beijos depois, plaft, ela está fudida, não literalmente, que fique claro. Portanto, o namoro será pudico, se ela não quiser virar vampira (vampirismo=libertinagem?). Não há sugestões de que o vampiro Edward tenha dado umas durante umas boas décadas. O vampiro que toda mãe adoraria ter como genro.

Apesar da caretice da coisa toda, e da visão extremamente conservadora do livro, que nos apresenta índios (que, saberemos depois, são lobisomens.Zzzzz....) que ironicamente parecem uma versão do white trash americano. O único negro da história é um vampiro bandido do mal. Os vampiros “do bem” são ricos e lindos, parecem que acabaram de sair de um desfile de modas, se arrumando para ir direto pra uma academia de ginástica. Assim é bom.

Dito isto, o filme funciona como diversão razoável, embora nada surpreendente, graças à mão firme com que a diretora Catherine Hardiwcke, do ótimo Aos Treze, conduz o mundinho dos personagens adolescentes, a única coisa do filme que chega perto de algo verdadeiro e convincente.

No mais, também é muito interessante a cena em que toca Muse, haha, e o destino do bandidão dessa primeira versão, com uma sugestão de violência cruel totalmente inesperada, já que o tom de quase todo o filme é morno. Última cena excelente também.

Fica a suspeita de que se fosse dada maior liberdade a Hardwicke, o filme seria mais vibrante e interessante, e consequentemente menos careta. Mas esperar isso num produto tão controladinho pelo estúdio, vigiado por milhares de fãs que exigem uma adaptação fiel (como se o livro fosse insuficiente para acalmar os seus corações) é esperar demais.

O próximo capítulo, Lua Nova, já está sendo filmado à toque de caixa, com os produtores correndo para lançar o produto em novembro deste ano. Má notícia: a direção ficou a cargo de Chris Weitz, que fez o ótimo Um Grande Garoto e também o pavoroso A Bússola de Ouro. Hardwicke, que com Crepúsculo tornou-se a diretora de maior retorno financeiro em Hollywood, se recusou a voltar pelo tempo curto destinado a pré-produção, o que já demonstra que, duh, a onda do estúdio é mesmo faturar, pai!

Incrível que nesta era cínica moderna tantas meninas continuem sonhando com o tal príncipe encantado, em uma obra que prega o valor da castidade, ideia que deve ter surgido em algum circuito careta norte-americano (Meyer é mórmon), e que vem dando muito certo. Quem quiser vampiros assanhados e moderninhos, só recorrendo à série de televisão True Blood mesmo.

Vampiro trepa na árvore!


Twilight / Catherine Hardwicke / 2008 (2:35:1)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

As Ruínas ( ** )

Ler é diferente de ver

A discussão cinema versus literatura, por mais interessante que seja, geralmente resulta em tópicos estéreis, já que cada lado ganha defesa e ataque pertinentes, mas nenhum no fim tem lá muita razão. Mas é muito intrigante e produtivo, para quem se interessa pela mecânica da coisa toda, comparar livros e suas respectivas encarnações cinematográficas, quando se conhece o material original.

Pois bem. Adaptação do livro de Scott Smith (o mesmo autor do romance, e depois filme, Um Plano Simples, pelo qual levou uma indicação ao Oscar), As Ruínas, o filme, é totalmente decepcionante para quem leu o livro e, suspeito, também para o espectador ordinário que nem sabia que este filme veio de um romance.

Não se trata de puritanismo ou apego à obra original, apenas a constatação de que há uma grande distância qualitativa quanto à satisfação causada pelas duas obras distintas. Eu poderia escrever aqui que o autor talvez não tenha gostado nem um pouco com o que fizeram com o seu filhote, mas a questão é que o próprio Smith adaptou o material para o cinema, entregando o tomo ao diretor estreante em longas Carter Smith – o sobrenome é o mesmo, mas não há nenhum parentesco.

O que me chamou atenção é que Smith fez um guião claramente construído para não deixar quem leu o romance- um Best Seller nos Estados Unidos- de fora da festa, já que saber os desdobramentos da trama poderia ser fatal, ainda mais em uma trama de horror. Para ser mais preciso, ele troca o visual e a personalidade dos personagens principais, assim como as situações e o destino de cada um. Não vale a pena revelar aqui o que foi trocado ou modificado, pois este é um texto sem spoilers, recurso que eu acho que deve ser usado com parcimônia e somente se for de real necessidade, com um essencial aviso introdutório, claro.

A revelação das modificações, ou melhor, adaptações, poderia estragar o prazer tanto de quem já leu o livro e quer ver o filme, ou do espectador virgem – mas os primeiros, se ficarem imunes a uma possível decepção, ou até mesmo irritação, iniciais, podem se divertir um pouco, comparando e listando as situações em que Smith teve uma rara chance de brincar mais um pouco com o seu brinquedo, e de dar rumos alternativos a sua obra aparente e inicialmente imutável.

Mas nem tudo é festa. O filme é fraquinho de doer. Um dos produtores é o ator Bem Stiller, e a equipe técnica é lotada de membros classe A, então temos um produto de muito bom gosto, pré-fabricado. Se o romance As Ruínas é uma obra de extremo interesse por construir uma trama de horror e de decadência humana, tanto a moral quanto a física, além de uma ou duas piscadas de olhos sobre temas batidos,mas sempre válidos, como os embates homem contra a natureza, e primeiro mundo contra terceiro mundo, o filme se reduz a uma obra corriqueira e até mesmo banal de terror.

O livro, que é uma trama de terror psicológica, dá agonia pela exatidão sádica da descrição da desgraça dos quatro amigos, culminando em um desfecho amargo. Já o filme é totalmente Hollywood, e me impressionou o quanto ele é curto e totalmente abrupto. Parece que dura apenas meia hora. O que poderia ser um elogio (“é tão bom que passa rápido”) simplesmente não cabe aqui. O filme é apenas ligeiro e raso. Mas Jena Malone é ídola, e ter Yeah Yeah Yeahs nos créditos finais dá ao filme um pouco de respeito, pelo menos para mim.

- Eu quero a minha mãe, um médico e um roteirista com culhões!

The Ruins / Carter Smith / 2008 (2:35:1)